TravelVince News#06

A ficção e o presente | Fiction and the present

For English, please scroll down to the British flag and italic text. Thanks!

🇧🇷 Ando meio confuso ultimamente. Escrevo vários parágrafos que no final não se conversam e o arquivo fica mofando no desktop. Sigo o texto conversando comigo mesmo ao longo do dia, no metrô, na bicicleta, no parque, no trem, no avião. Mas como estou em trânsito o tempo todo, os caderninhos ficam guardados nos bolsos da mala e mochila e não anoto nada. Viram bolhas de sabão.

Dito isso, resolvi juntar alguns pensamentos e descobertas aleatórios que têm me feito pensar e acalorar conversas pós-jantar. Tento fugir do canhão de notícias, mas é como tapar o sol com um chapéu de palha. Mesmo assim, se não estou rodando as ruas de bicicleta, estou enfurnado em livrarias, pesquisando títulos para uma nova aventura profissional.

Os jornalistas franceses e italianos estão sendo alvos de violência ao cobrirem os protestos antivacina. Assim como em manifestações no Brasil, sempre tem alguns seres mais exaltados que estragam a festa e infelizmente em grupo, nós, seres humanos, somos vis. Entendo o receio de tomar vacina, eu mesmo, no distante fevereiro, achava que esperaria para ver. Escolhi viver o presente e torcer para não haver efeitos colaterais. Queria poder sair de casa, abraçar os amigos, dançar e, principalmente, viajar. Se me transformar em um crocodilo ou ciborgue daqui a alguns meses ou anos, valeu a pena. A vida é hoje.

Li três romances em sequência, “Companions”, da dinamarquesa Christina Hasseholdt (médio), “Premier Sang”, da belga Amélie Nothomb (bom) e “Salvatierra”, do argentino Pedro Mairal (ótimo). Sendo assim, me liberei para ler o recém-lançado “Une brève histoire de l’Égalité”, do economista francês Thomas Piketty, de não ficção. É uma versão nova e resumida das suas grandes obras “O Capital no século XXI” e “Capital e Ideologia”. Quando nossos olhos são abertos para o conhecimento, fica impossível fechá-los novamente.

Com base em dados e estudos rigorosos, Piketty conta sobre as origens das desigualdades atuais. Ainda bem que o livro é curto, pois apesar de excelente, prefiro voltar para a ficção. O ponto interessante, que não só o Piketty escreve, mas que vários teóricos afirmam: o Estado somos nós, o sistema atual foi criado por humanos e pode ser modificado, cancelado, destruído. Basta saber o que colocar no lugar.

Em relação a meus manuscritos, queria escrever um conto para contar a história do filho que usou as cinzas da mãe cremada para fazer um diamante que carrega num pingente. O pingente será roubado num sequestro relâmpago, junto com R$ 10.000 em PIX. A parte das cinzas que ficou com a irmã será espalhada na beira de um rio, só que o vento levará boa parte delas para uma festa de casamento ali perto. Os convidados, com poeira nas roupas, olhos, narizes e bocas acharão que é areia.

Tem também o conto do cara que aceitou o convite de um charmoso homem mais velho para ir ao seu quarto de hotel e, no meio da transa, o velho tem um infarto e morre. Isso foi em Hong Kong e, apesar de não ter culpa de nada, talvez apenas por ter um corpo malhado e ser “caliente”, o cara segue preso esperando ajuda consular de seu país, onde o homossexualismo é crime.

Tudo são narrativas. O que é certo para um, pode ser errado para outro. Como dizia uma conhecida das antigas: “Opinião e gosto é que nem cú, cada um que cuide do seu”. Termino essa newsletter num tom esculachado (para usar a palavra chula do saber amical) e com uma recomendação: leia as fontes de suas notícias, pesquise de onde vem a informação, dê um Google, compare, pense e leia romances, nossa única salvação nesse presente que parece ficção científica de mau gosto. Saludos da Itália.

ps: assisti à série “The Chair” no Netflix e gostei.

🇬🇧 I've been a little confused lately. I write several stories that make no sense and the file gets moldy on the desktop. I follow the stories talking to myself throughout the day, on the subway, on a bicycle, in the park, on the train, on the plane. But since I'm on the go all the time, the notebooks are kept in my suitcase and backpack and I don't write anything down. They turn into soap bubbles.

That said, I've decided to piece together some random thoughts and discoveries that have been making me think and heat up after-dinner conversations. I try to escape the news, but it's like covering the sun with a straw hat. Even so, if I'm not riding a bike on the streets, I'm holed up in bookstores, researching titles for a new professional adventure.

French and Italian journalists are being targeted by violence as they cover anti-vaccine protests. As in demonstrations in Brazil, there are always more exalted beings who spoil the party. Unfortunately, in a group, human beings are vile. I understand the fear of getting the vaccine, myself, long ago February, thought I would wait and see. However, I chose to live in the present and hope there will be no side effects. I wanted to be able to leave home, hug friends, dance and, above all, travel. If I turn into a crocodile or cyborg in a few months or years, it was worth it. Life happens today.

I've read three novels in a row, “Companions”, by the Danish Christina Hasseholdt (so so), “Premier Sang”, by the Belgian Amélie Nothomb (good) and “Salvatierra”, by the Argentine Pedro Mairal (great). Therefore, I allowed myself to read the recently released “Une brève histoire de l'Égalité”, by the French economist Thomas Piketty, a nonfiction. It is a new and abridged version of his great works “Capital in the 21st century” and “Capital and Ideology”. When our eyes are opened to knowledge, it is impossible to close them again.

Based on rigorous data and studies, Piketty tells about the origins of current inequalities. Thankfully, the book is short, because despite being excellent, I prefer to go back to fiction. The interesting point, which not only Piketty writes, but which several theorists claim: the State is us, the current system was created by humans and can be modified, canceled, destroyed. The hard part is deciding what to replace it with.

Regarding my manuscripts, I wanted to write a short story to tell the story of the son who used his mother's ashes to make a diamond that he carries in a pendant. The pendant will be stolen in a quick kidnapping, along with U$10,000 in bank transfers (this is a new fashion in Brazil). The part of the ashes that remained with the sister will be scattered on the edge of a river, but the wind will carry most of them to a wedding party nearby. Guests with dust on their clothes, eyes, noses and mouths will think it's sand.

There's also the tale of the guy who accepted the invitation of a charming older man to go to his hotel room and, in the middle of sex, the old man has a heart attack and dies. This was in Hong Kong and, despite not being to blame for anything, maybe just for having a fit body and being “hot”, the guy is still in prison waiting for consular help from his country, where homosexuality is a crime.

Everything is narrative. What is right for one may be wrong for another. As an old acquaintance used to say: “Opinion and taste is like the ass, each one takes care of their own”. I end this newsletter in a skewed tone and with a recommendation: read your news sources, research where the information comes from, Google it, compare, think and read novels, our only salvation in this present that looks like bad science fiction. Greetings from Italy.

ps: I watched “The Chair” on Netflix and quite liked it.

TravelVince News #05

Rota de fuga | Runaway route

For English, scroll to the British flag and italic text, please.

🇧🇷Resolvi sair do armário e desabafar nesta quinta edição da TravelVince News. Passei junho e julho em silêncio, escondido. Não encontrava coragem para sentar e contar para você o meu segredo. Não sou de ficar em silêncio, de me manter escondido. Gosto de compartilhar pensamentos e descobertas – por isso essa newsletter – então hoje acordei com o sol raiando, fui correr e na volta resolvi sentar e, finalmente, escrever.

Fugi da minha caverna curitibana no começo de junho, quando soube que poderia tentar me vacinar em outro país. Demorou para eu tomar a decisão porque tinha medo. Medo de sair do meu canto seguro, de chegar do outro lado do Atlântico e não conseguir a vacina. O que precipitou a decisão foi a explosão da minha pequena bolha local. Vários dos meus amigos mais próximos se infectaram. Vi que seguro eu não estava em lugar nenhum.

Quase ninguém sabia do meu plano, mas quem sabia de cada detalhe eram os algoritmos do Facebook e do Google, que me jogavam na frente ofertas de passagens imperdíveis e notícias de fronteiras reabrindo. Perguntei para um amigo que tem um quarto de hóspedes – que ouso chamar de “meu quarto” – se poderia acampar na casa dele em Paris sem data de saída e ele disse que sim. Venha logo!

14 dias na Grécia entre Atenas e Meteora para satisfazer os requerimentos de entrada na União Europeia de quem vem de áreas de risco, como o Brasil | I spent 14 days in Greece, between Athens and Meteora to fulfill EU entry requirements for people coming from high risk areas such as Brazil

Alguns PCRs e 14 dias de “quarentena” na Grécia depois, desembarquei na França e fui do aeroporto direto para o centro de vacinação. Reservei a vacina por um aplicativo. Eu estava tão nervoso e ansioso que parecia que iria explodir. Quando a agulha perfurou a pele do meu ombro, dei vazão a uma enxurrada de lágrimas. Lágrimas da mais pura felicidade. Esperei 21 dias e tomei a segunda dose, também emocionado, mas sem as lágrimas. O plano era esse, tomar as duas doses em tempo recorde. A sensação de missão cumprida é grande. Mesmo assim, ainda me sinto vulnerável. Mantive a máscara. Que coisa maldita esse vírus, né?

Com um passaporte sanitário novinho em folha, resolvi dar meu primeiro grande passo e fazer uma viagem de descobrimento. Fui para a Romênia. Aluguei um carro e passei dez dias visitando lugares que nem imaginava existirem. Cidades medievais como Sibiu e Sighisoara. Cruzei a Transilvânia pelo passe Transfagarasan, vi o castelo do conde Drácula em Bran e a lindinha estação termal de Sinaia. A diferença horária com o Brasil é de 5 ou 6 horas, então dá para explorar de dia e, ao anoitecer, fazer home office.

Depois da vacina eu pude entrar na Ópera de Paris, que ainda não conhecia por dentro | After the vaccination I could get into the Paris Opera

Vou deixar essa newsletter curta para ter o que escrever nas próximas semanas. Cheguei ontem em Budapeste, onde o clima é estranho, meio como se a pandemia não existisse. Não sei se isso é bom ou ruim. Me acostumei tanto a ser mais um de máscara que, quando sou apenas um, acho que algo está estranho. Só não sei se comigo ou com as pessoas ao redor. Será que o ditador deles também que fala que máscara é coisa de viado? Conto mais em breve. Não esqueça de assinar a newsletter para receber as próximas e obrigado por me ler.

ps: você já conhece os Alumbramentos da Pulp, a newsletter que escrevo com minhas sócias da editora com dicas de livros, minicontos e outros alumbramentos? Leia-os aqui.

🇬🇧Today, after my morning run – which does not happen very regularly – I decided to get out of the closet. I spent June and July hidden away in silence. However, I do not like to be silent. This is why I keep this newsletter after all. Therefore, after two months of no news, here I am getting out and telling you my little secret.

I left my Brazilian cave in early June when I found out I could get vaccinated in 21 days abroad. It took me a while to get the courage to leave home, take a plane and be among people I don’t know. What sped up my decision was the bursting of my small social bubble in Curitiba. Most of my very close friends got infected. It dawned on me that I was not safe anywhere.

Very few people knew about my wish to run away. Google and Facebook were among the few. They kept sending me offers of cheap tickets and news about the opening up of borders. So I called a friend in Paris who has a spare room I dare call “my room” asking him if I could migrate with no date to leave and he said yes, come over!

Many PCR tests and a 14-day “quarantine” in Greece later I landed in France and took a taxi from the airport straight to the vaccination center. There was so much anxiety inside of me that when the needle pierced my skin I burst out crying. Tears of joy, bien sûr. Twenty-one days later I had the second shot, still with emotions but with less tears and feeling of mission accomplished. Fully vaccinated. Even so, I do not feel as invincible as I thought I would. What a shitty virus, isn’t it?

With a brand new sanitary passport I took a bold step and booked a 10-day trip to discover Romania. What an amazing country! On a road trip, I crossed the Transfagaran pass, visited the medieval towns of Sibiu and Sighisoara, took pictures in front of Dracula’s castle in Transylvania and enjoyed the thermal spa at Sinaia.

Being 5 to 6 hours ahead of Brazil there is plenty of time to explore during the day and to sit at my mobile “home office” in the evening. I will leave you here, not to extend this newsletter too much and to save some juice for the next ones, which I hope will not take as long to come up.

Today I am in Budapest, where it feels like the pandemic never happened. I still don’t know how to handle places like these, where nobody wears a face mask and everybody sits indoors to eat. Hard to tell yet who is crazy, me or them. Thanks for reading me and until the next issue! Make sure you subscribe not to miss the next one! Bye!

TravelVince News #04

As falhas da memória | Memory gaps

🇬🇧I found an old notebook with names and emails of people I met in the years before Facebook. In those days we used to bid farewell with postal addresses and emails. We would hope to eventually meet again, someday. If you are wondering how this newsletter found its way into your inbox, it’s because your name was on that old list last updated in 2003. For the English version, scroll down to the blue picture, please.

🇧🇷Encontrei uma agenda antiga com nomes e emails de várias pessoas que conheci ao longo da vida antes do Facebook. Naquela época a gente trocava endereços e emails. Torcíamos para um dia nos reencontrarmos, quem sabe. Pois bem, se você recebeu essa newsletter e não tem noção de onde veio – nem de quem sou eu –, veio daquela lista, atualizada pela última vez em 2003.

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🇧🇷Meu medo de perder a memória começou na adolescência, na mesma época em que descobri que a bebida me tornava sociável e aceito. Bebia muito para rodopiar na pista de dança, para soltar a língua e ter coragem de beijar meninas. Só que o álcool torrava meu cérebro e os neurônios mortos na noitada não voltariam a funcionar, dizia o professor de Biologia. Então a paranoia de começar a esquecer das coisas, dos acontecimentos e das pessoas teve início. Piorou quando passei a cheirar lança-perfume. Naquela época era apenas paranoia, afinal, seguia tirando boas notas. Mesmo assim, comecei a fazer uma lista com o nome de todos os filmes a que assistia. Pensei em fazer uma outra lista com os nomes das meninas com quem ficava, mas achei que delas não me esqueceria.

Hoje esqueço quase tudo. Noto enormes lacunas na minha memória, às vezes cômicas, como quando não lembro que já peguei no peito de tal pessoa, hoje mãe da família. Outros lapsos são mais graves, como não lembrar que já estive em um lugar, ou que já fui apresentado para certa pessoa umas cinco vezes. Esqueço com quem já transei. De verdade. Lembro das palavras que aprendi na aula de inglês quando tinha 13 anos mas não consigo falar as poucas da aula de mandarim de ontem. Assisto a um filme hoje e daqui a dois dias já não lembro mais da história. A diferença é que a paranoia juvenil virou acomodamento adulto. C'est la vie, dizem.

Certas coisas de que gostaria de esquecer eu lembro vivamente, como quando eu e uma prima empurramos o filho da caseira da praia para o fundo do mar porque ele estava nos incomodando. Ele se afogou e eu me escondi atrás de um armário de medo de apanhar. Minha sorte é que todo mundo achou que eu também tinha me afogado, meu sumiço causou pavor na família. Quatro horas depois, quando minha mãe escutou meu choro atrás do armário foi um alívio. Ela achou que eu estava ali de medo da convulsão que foi o afogamento do filho da caseira. C'est la vie, pensei.

Tenho uma prima irritante que lembra de tudo nos mínimos detalhes. Se eu também lembrasse de tudo nos mínimos detalhes talvez não a achasse tão irritante. Esses dias ela roubou uma meia de Natal do Snoopy da minha casa porque se lembrava de que quando éramos pequenos, a meia era dela e trocamos por uma borrachinha perfumada do Paraguai. Mas confesso que também sou irritante com uma amiga, que um dia me contou, em segredo, que tinha chupado o pinto de um cara. Sempre que me encontro com o cara, faço uma selfie nossa e mando para ela com um emoji de risadinha. Talvez ela quisesse esquecer disso, assim como eu gostaria de ter apagado a culpa pelo afogamento do filho da caseira para dar lugar no meu HD cerebral ao novo vocabulário mandarim.

Guardo fotos, cartas, recordações de viagens (caixas de fósforo, notas fiscais, entradas de museus) e até mesmo bilhetinhos trocados em sala de aula. Tenho medo de me desvencilhar dessa parafernália e nunca mais ter os alumbramentos ao remexê-las. Quem sabe um dia as memórias me ajudem a compor um romance, ou a lembrar-me quem fui, caso seja acometido por Alzheimer. Morro de medo de ter Alzheimer justamente pelo pavor do esquecimento. Se minha vida se tornar o filme "Meu Pai", com o Anthony Hopkins, não sei o que será de mim. Ainda mais eu que não terei uma Olivia Colman para tentar me alegrar. Economizo dinheiro para poder me internar em um sanatório bem bom com enfermeiros bonitos e cuidadosos. C'est la vie, oras.

Pensando em ficar velho, lembro de minha avó paterna. Ela sempre me puxava pelos cantos com suas mãos cheias de veias azuis e, num tom confabulatório, dizia que eu só seria feliz se me casasse com uma moça boa e se tivesse muitos filhos. Caso contrário só daria trabalho para meus pais e para o meu irmão. Vez ou outra tenho pesadelos com aquela mão gelada de dedos magros e compridos me apontando e dizendo: eu bem que te falei! Como toda boa libanesa, tentou me casar com uma prima sem pensar que os bisnetos nasceriam fosforescentes. Viveu até os 103 anos, por isso minha preocupação com a poupança para a velhice no sanatório de enfermeiros sarados. Outro projeto é dar uma festa de arromba aos 85 e tomar uma overdose de champanhe.

Nesta newsletter não vou recomendar nada. Talvez pílulas de gingko-biloba, palavras cruzadas e sudoku. Tenho me sentido travado. Estou preso aos mesmos livros que comecei há dois meses e se tornaram intermináveis. Mesmo a série sobre o designer de moda Halston, no Netflix, me travou, já que muitos morrem de outra pandemia, que me assusta desde quando tinha memória; a pandemia de AIDS. A vida também segue travada no Brasil, sem vacina, entre bandeiras laranjas e vermelhas. Contudo, postei dois textos novos no TravelVince.com, o Visite Capivânia e o Sweet Dreams. Prometo destravar até nosso próximo encontro por aqui. Quem sabe um passarinho me leve a outras paragens. Guardo surpresas.

Se cuide!

Vicente

Ps: não poderia me despedir sem contar que começamos, eu e minhas sócias da Pulp – Fer e Pati –, uma outra newsletter de contos curtos chamada de Alumbramentos da Pulp. Está deliciosa. Assina lá também. Obrigado.

🇬🇧My fear of losing my memory started in my teenage years. At the same time I found out alcohol made me socially accepted. I used to drink a lot to whirl around dancefloors, speak up, and have the courage to kiss girls. But that alcohol was also frying my brain and the neurons killed partying would never be born again, the Biology teacher assured me. Therefore the paranoia of forgetting things, people and events began. It got worse when I added poppers to the mix. At that time it was just paranoia as my grades in school and uni were still good. However, I started compiling a list of all the movies I had watched, just in case. I also thought of starting one with the names of the girls I had kissed, but I thought I could never forget them.

Nowadays I forget almost everything. There are enormous voids in my memory. Some are quite hilarious like forgetting I already touched someone’s nipples. Some are not fun, like forgetting I’d been somewhere or introducing myself for the fifth time to the same person. I even forget with whom I’ve already had sex. Really. I remember words I learned in French when I was 13 but cannot recall the new vocabulary learned two days ago for Mandarin class. I will watch a movie today and in two days' time will have obliterated it from my memory. What was paranoia in my teenage years has turned into a c’est la vie approach late in life.

There are certain events I would rather to forget but I remember them vividly. Once, as kids, a friend and I were playing in the water at the beach. The son of the cook was annoying us so we pushed him into the waves. He almost drowned. In the chaos of people rushing to rescue him in the water, I ran away and hid behind a closet. To my luck, my parents thought I had also drowned and were looking everywhere for me in despair. Four hours later, when my mom heard me crying behind the closet, she was so relieved to find me alive there was no question of what had actually happened. I kept quiet. C’est la vie.

I have an irritating cousin who remembers absolutely everything. In detail. If my memory were as good as hers, I'd probably not find her so annoying. Once she stole a red Snoopy Christmas sock from my apartment claiming I had cheated her when we were small. I offered her a perfumed pencil eraser bought in Paraguay in exchange for that Christmas sock. Revenge is a "bitch" best served cold. She did not mention returning my perfumed eraser though. But I confess I can also be quite irritating. A friend of mine told me once in secret she had sucked a guy's cock. Whenever I meet the guy, I take a selfie with him and send it to her with a smiley emoji. Maybe she would rather forget that the same way I would love to forget having pushed the cook’s son into the waves. I could use the freed space in my brain's hard drive for the Mandarin vocabulary.

I keep pictures, letters, travel souvenirs and even small notes exchanged in class 35 years ago. I fear throwing it all away and not having the glimpses this paraphernalia brings back anymore. Maybe those memories will one day help me with my novel or will simply help me recover memory as such (if Alzheimer shows up, for example). After watching The Father, with Anthony Hopkins, I thought that I’d better save money for a good care home since I will have no Olivia Colman to help me. C’est la vie.

Thoughts of being old remind me of my grandmother. She would often push me aside with her blue veined hands to tell me I would only lead a happy life if I married a proper girl and had lots of children. Otherwise, I was doomed to be a burden for my parents and for my brother. From time to time that cold hand with those long fingers pointing at me uttering that curse still comes to mind. As a typical Arab granny, she wanted me to marry a cousin not knowing we were bound to have fluorescent kids. She lived to 103 years old, enough reason for me to keep on saving for that quality care home, with gorgeous male nurses to give me my injections. Another plan is to spend it all on an 85-year-old bash and overdose on champagne. Sign up if you want an invitation!

Today I will not recommend stuff, as usual. Maybe some ginkgo-biloba, crosswords and sudoku. I’ve been feeling stuck. I am even stuck to the books I started reading two months ago which have become unending stories. Even the Netflix series on Halston made me freeze thinking of all the deaths due to AIDS, a pandemic that still scares the shit out of me. Life in Brazil feels kind of stuck, with little vaccination and an alternation of hard and light lockdowns. However, I do have plans to get unstuck for the next newsletter and hopefully, a little bird will whisk me away from here soon.

Take good care,

Vicente 

ps: if you can read Portuguese or don’t mind reading with Google Translate, I can recommend two new short stories of mine on TravelVince.com and another newsletter I’ve been writing with my business partners at Pulp called “Alumbramentos da Pulp”. Have a look and sign up!

TravelVince News #3

Caminhando pela cidade, lendo em casa, escrevendo aqui | Walking around town, reading at home, writing here.

🇧🇷 Se você recebeu o link por WhatsApp, leu e gostou, sugiro que assine. É só escrever o teu email ali no subscribe. Sinto-me menos intrusivo na tua caixa postal do que nas conversas. Prometo não compartilhar o endereço do email com ninguém, além de você poder sumir sem deixar traços, se assim preferir.

🇬🇧 If you received the link via WhatsApp, read and enjoyed the newsletter, I would suggest you subscribe. I feel less intrusive getting into your inbox than on your conversations. I promise not to share your email with anybody and you always have the option to vanish without a trace if you wish so.

The English version starts at the picture where visited the World Trade Center in New York.

🇧🇷 Minhas aventuras atuais têm sido longas caminhadas por Curitiba, que em chinês se escreve 库里蒂巴. Saio bem cedo, quando não preciso dividir as ruas com muita gente. Ou sigo pelas ruas que ninguém usa. Visto as minhas máscaras, plugo o fone de ouvido e clico numa playlist de podcasts recentes. Lá vou eu, desviando dos desmascarados e observando as folhas do outono enquanto mergulho em entretenimento e informação. A via do Expresso que serpenteia pela Ecoville está magnífica com os plátanos amarelos e vermelhos avisando que chegou o outono. Recomendo a caminhada antes da alopecia invernal.

Recentemente, escutando o último episódio do Huberman Lab Podcast (falei dele na newsletter anterior), voei alto imaginando as mais variadas variantes que nos fazem ser quem somos. Ele falou sobre hormônios, aminoácidos e os processos biológicos que fazem um embrião desenvolver características sexuais. Algo que aprendi nas aulas de ciências da 7ª série, que existem apenas os fenótipos XX e XY, na verdade nunca foi óbvio, nem verdadeiro. Há, como em tudo na natureza, vários tons de cinza. Mas o que me fascinou foi descobrir que várias reações químicas no útero afetam o desejo sexual do feto no futuro. É mais ou menos como dizer que se a mãe tomar sorvete de pistache em dia de lua cheia e dormir de lado o feto pode desenvolver preferências sexuais pelo sexo masculino. Caso ela tome sol ao meio dia e use água de colônia com alfazema, o feto gostará do sexo feminino. A culpa é sempre da mãe, kkkk.

Nos nove meses em que, envolto em placenta, ocupei o útero da minha mãe, era esperado pela família com dois nomes: Carime ou Vicente. Não havia ecografia nos anos 1970 e os enxovais de bebê eram multicoloridos. O grande segredo era revelado só no dia L, dia da luz. Eu nasci de saco roxo, dizem que significa algo, mas nunca dei bola para essas tolices. A placenta foi jogada fora e hoje não tenho células tronco de reserva. Fui para casa no meu tiptop amarelo e ganhei o nome do avô italiano e não o da bisavó libanesa. Mas a genética é mais forte do que a gente. Sou 14% italiano e 21% libanês, ou seja, o amor ao quibe prevaleceu. Vou realmente muito longe em minhas divagações e caminhadas, não é mesmo?

Outro podcast que me acompanha e instiga é o History of Ideas, do David Runciman, professor em Cambridge. Cada episódio trata de um conceito da sociedade baseado na opinião de uma pensadora ou pensador. São temas meio densos e complexos como "Rousseau e a Desigualdade" ou "Rosa Luxemburgo e a Revolução". Me sinto muitas vezes tão pequeno em meio a tanto conhecimento. Mas poder escutar e ser tocado por essas ideias já basta. O que sempre me pergunto é: ok, e o que fazer com tudo isso que agora sei? Não tem como "dessaber", assim como não é possível "desver". Viu, tá visto.

Falando em "viu, tá visto" caí no buraco negro do último documentário do Adam Curtis para a BBC chamado "Can't Get You Out of My Head", baseado largamente no livro "Realismo Capitalista", de Mark Fisher (recomendado no podcast Expresso Ilustrada, da Folha de SP). São seis episódios que tricotam os eventos do pós-guerra para justificar o estado atual do mundo, principalmente os entraves políticos e econômicos. É horrível. Assisti assombrado a todos no YouTube menos o episódio 5 , que foi tirado do ar. Uma amiga casada com um documentarista da BBC falou que não via porque tinha medo de enlouquecer trancada em casa com todas aquelas informações. Sugeriu-me ver "Emily in Paris" em repeat. Falando nisso, recomendo um filme francês excelente no Netflix, o “Madame Claude”. Adoraria ter sido garota de programa da Claude em Paris nos anos 1960.

Sabia que já ganhei dinheiro com sexo? Estava em Taipé, capital de Taiwan. Conheci um piloto da EVA Air que veio me ver no hotel. Ele tinha umas fantasias interessantes e eu, que sou bem aberto a fantasias interessantes, me deixei levar. Primeiro ele gostava de ficar fumando um cachimbo e jogando a fumaça pelo meu corpo enquanto se olhava no espelho. Tudo bem. Eu olhava no espelho e tinha vontade de rir com aquela defumação. Depois falou que gostaria de me pagar, que se sentiria melhor se a transação fosse também monetária. Falei que não tinha problema nenhum. Ele ofereceu 150 dólares. Para mim, até grátis rolava, então aceitei para deixá-lo tranquilo. Meu treinamento de gueixa da Emirates foi excelente. O engraçado é que, pós-coito, ele tinha só 120 dólares em dinheiro local. Disse que iria no caixa automático tirar o que faltava e que voltaria. Esperei ansiosamente pelos 30 dólares faltantes e me senti ganancioso. Não voltou. Com os 120 dólares, comprei um par de tênis de Crossfit. Nunca mais voei de EVA Air.

Como hoje estou amarrando um assunto no outro e estamos no Oriente, lembrei de um dos livros que estou lendo, da belga Amélie Nothomb. Ela nasceu no Japão e com cinco anos foi morar em Pequim, transferida com a família de diplomatas. A visão que ela tem da China dos anos 1970, do ponto de vista de uma criança belga que jurava ser japonesa é hilariante. Depois de Pequim a família vai para Nova York e a descrição da chegada dela na cidade me lembra as emoções que eu senti na primeira vez em que vi o skyline de Manhattan, com 12 anos. "O importante é que emoções eu vivi", como cantaria o Rei. Os romances de Nothomb são, na verdade, longos contos ou novelas. Esse chama-se "Biografia da Fome". Recomendo tudo o que ela escreve. Tem uma entrevista linda com ela em um podcast da Elle Magazine chamado “Une Nuit en Librairie”

Leio Nothomb junto com o norueguês Karl Ove Knausgard, que também verte sua vida privada nas páginas. Pode ser um recurso interessante contar mais sobre as minhas aventuras e experiências romantizadas e ficcionalizadas, bien sûr, para ficarem ainda mais picantes e deliciosas. Prometo ser mais Nothomb do que Knausgard, já que estou com ele há 23 páginas numa divagação sem fim, trancado num apartamento de Oslo, enquanto que com ela já fui para Nova York, Bangladesh e agora estamos novamente no Japão, escutando Ryuichi Sakamoto. Já pensei inclusive na epígrafe do livro: um pedaço da música "La Chanson de Ziggy", do musical francês Starmania, que acompanhou os dias esquizofrênicos de minha primeira grande paixão.

    "Je vais leur raconter ma vie. Est-ce que tu crois que ça suffit, ta vie? Mais ma vie, tu la connais pas". (Vou contar-lhes minha vida. Você acha suficiente, tua vida? Mas minha vida, você não a conhece). Oh… mal posso esperar!

Na minha suruba literária – sou leitor de vários escritores, homem de muitos amores – também está presente a diva brasileira Clarice Lispector. Adoro espalhar os livros no sofá e na cama e fazer um ménage entre eles. Um pequeno texto dela de ontem à noite intitulado "Se eu fosse eu" me arrebatou e divido com você já em tom de despedida.

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto, já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudaram inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecido. No entanto, tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando por que me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais (extraído de Clarice Lispector - Todas as Crônicas - Ed. Rocco 2018).

Obrigado pela leitura desta missiva. Se ainda não cansou, tem um mini-conto novo da aula de escrita chamado “Andarilho” no TravelVince. Se puder assinar e compartilhar a newsletter, agradeço. Já estou com uma lista de confissões para a próxima. Se cuide e até breve.

Vicente

🇬🇧 Long walks around Curitiba have been most of my adventures lately. I leave early in the morning not to bump into too many people on the way. Sometimes I just walk over empty neighborhoods. I wear my double-mask, plug in the earphones, and push play on the playlist of my favorite podcasts. Off I go, dodging the unmasked and observing the autumn leaves deep in thought, entertainment and information. There is a special bus lane in Ecoville where the trees have gone yellow and red, announcing the new season. I highly recommend the walk before they go bald in winter.

Listening to a recent Huberman Lab Podcast (mentioned in the previous newsletter) I wondered about the many biological variations that make us who we are. The show mentioned hormones, amino acids, and other biochemicals that mix and match in an embryo in order to develop its sexual characteristics. What I learned years ago in school, that there are only XX and XY combinations for gender couldn't be further from the truth. Like everything else in Nature, there are many shades of gray. Nothing is black or white. What fascinated me was to find out that chemical reactions inside the uterus affect the embryo's sexual development in the future. It is almost as if to say that when the expectant mother has pistachio ice cream on a full moon and sleeps sideways, the baby (and therefore the adult) will prefer males. On the other hand, if she sunbathes at noon and wears cheap cologne, the baby will go for females. It is always the mother’s fault. LOL!

During the nine months I lived wrapped in placenta I had been expected by the family with two names: Carime or Vicente. In an era before the ultrasound, when baby showers were colorful affairs (not just blue or pink), the big secret was only revealed on L-day, the day of light. It is said I was born with a dark penis, whatever that means. The placenta was thrown away – and the possibility of stem cell salvation – and dressed on a yellow bodysuit I was given my Italian grandfather's name, not the Lebanese great-grandmother's. However, genetics is more powerful than we think. I am only 14% Italian and 21% Lebanese, so my love for mezzeh prevailed. You see, I really go far away on my thoughts during these walks around town.

The other podcast I listen to very attentively is History of Ideas, by Cambridge professor David Runciman. Each episode is about a book that defines a concept in today's society. They are dense and complex conversations such as "Rousseau on Inequality" or "Rosa Luxembourg and the Revolution''. I often feel very small amid such thinkers and wish I could comprehend every single word. But just being aware of these ideas (and ideals) is enough. What I ask myself is: what to do with this new knowledge? I can't "unknow" things as much as I can't "unsee" things. So I keep on walking.

I wish I could "unwatch" Adam Curtis' 6-part documentary on BBC called "Can't Get You Out of My Head", based largely on Mark Fisher's book "Capitalist Realism". It was too much for a lockdown season. It makes for a gloomy future unless we undo things – undoing is possible – or do things differently. I watched them on YouTube and got quite curious as to why episode 5 was taken down from the platform. Too much conspiracy? If you enjoy conspiracies with a very light touch, I also recommend Netflix's "Madame Claude", a French movie about the life of a famous Parisian madame in the late 1960s. I wish I could have been one of her girls in those days. I just would not have smoked so much.

Talking about sex and money, the movie reminded me I have already been paid for sex. It was in Taipei, Taiwan. I met an EVA Air pilot, he came over to my hotel full of interesting fantasies. I have always been very open to sexual fantasies and decided to play along. First, he wanted us both to be naked while he smoked a strange pipe and blew smoke all over me. I just laid on the bed, looking at the mirror and trying not to laugh while being smoked like a trout. Afterward, he said he wanted to pay me so he would feel more comfortable with the whole situation. Why not? My geisha training at Emirates taught me to always comply in such situations. He offered me 150 bucks but he didn't have enough local currency. He left promising to pass by the reception's ATM and bring me the remaining 30 dollars. He never returned. Maybe because he could not have a hard-on. I bought a pair of Crossfit shoes with the money and never ate smoked fish again. Nor did I fly EVA Air.

As one story goes into the next one and we are in the Far East I have to mention one of the books I've been reading, by the Belgian writer Amélie Nothomb. She was born in Japan. When she was 5 years old she moved with her diplomat parents to Beijing. The descriptions of 1970s Beijing from the point of view of a child are hilarious – and so interesting when thinking of today's Beijing. From China, the family moved to New York. The chapter about her arrival in the Big Apple sent me years back, to the very day I first saw Manhattan's skyline from the windows of a yellow cab on the way from JFK. I was 12. She was 7. The book is called "The Life of Hunger" and I am enjoying it very much. I recommend all of her books. There is an excellent podcast called "Une Nuit en Librairie" (in French) where Nothomb is interviewed. She is great.

Another book I've been reading is the last of Karl Ove Knausgard's "My Struggle", from Norway. I enjoy it, albeit right now it has been a bit of a personal struggle as we are stuck in a small room in Sweden page after page after page and he is digressing about god knows how many issues. But I still enjoy his writing and just as Amélie Nothomb's, they share their personal life stories in different degrees of fictionalization. This makes me want to do the same. I could share my adventures around the world, from being kidnapped in China to discovering the pleasures of Parisian saunas. How was it to leave home at 19 and move to weird Switzerland, the first job in London, the sleazy life in Dubai. With the right amount of fiction, the stories could become even juicier. I even thought of the book's epigraph, taken from the song "La Chanson de Ziggy", part of Starmania, a French musical.

    "Je vais leur raconter ma vie. Est-ce que tu crois que ça suffit, ta vie? Mais ma vie, tu la connais pas". (I will tell them my life. Do you think your life is enough? But my life, you don't know it). Wow… I can't wait! Save this space!

In my literary orgies – I am a man of many writers, of many lovers – there's also space for a Brazilian diva, Clarice Lispector. I love spreading the books over my bed or sofa to have a wonderful ménage. A paragraph from Lispector at yesterday's session called "If I were me" struck me and I share it here in my own translation. I hope she is not turning around in her tomb in disgrace.

When I don't know where I've kept an important piece of paper and its search is useless, I ask myself: if I were me and I had an important piece of paper, which place would I choose? Sometimes it works. Many other times I remain so pressed by the sentence "if I were me", that the search for the piece of paper becomes secondary, and I start thinking. Better said, feeling.

And I don't feel good. Try it: if you were you, how would it be what you would do? From the start there is an embarrassment: the lie with which we accommodate ourselves has just been slightly moved from where it had long been accommodated. However, I've read biographies of people who suddenly became who they really were, and their life changed completely. I think if I were really me, friends would not greet me on the street because even the way I look would have changed. How? I don't know.

Half of the things I would do if I were me, I can't tell. I think, for example, that for a certain reason I would be locked up in jail. If I were me, I would give away what is mine, and I would trust the future into the future.

"If I were me" seems to represent our biggest living fear, and seems to be the new unknown road. However, I have the intuition that, getting over the first so called craziness of the joy it would be, we would finally experience the world. I know well, we would experience in full all of the pain in the world. And our pain, the one we've learned not to feel. But we would also be taken aback in an ecstasy of pure and legitimate happiness that is hard to guess. No, I think I already, in a certain way, am guessing because I felt myself smiling and I also felt a kind of shame one has when facing what is too big to fathom (from Clarice Lispector - Todas as Crônicas - Ed. Rocco 2018 translated by Vicente Frare).

Thank you for reading. If you still have some energy left, there is a new short story called "Wanderer – Andarilho" at TravelVince (in Portuguese however, but you can read with the Translate button at the bottom of the page). If you could subscribe and share this newsletter, I will be forever grateful. I already have a full list of confessions for the next one. Take care and see you soon.

Vicente

TravelVince News #02

O que fazer quando não há nada para fazer | What to do when there is nothing to do

🇧🇷Obs.: adicionei endereços de email de quem os havia deixado lá na inscrição de newsletters do TravelVince, desde 2016! Se quiser pular fora dessa, não se avexe. Basta clicar em "unsubscribe" lá no final. Não vou nem ficar sabendo. Mas se quiser me dar uma chance, vá em frente.

🇬🇧Note: I've added a few email addresses from those who subscribed ages ago – as far back as 2016 – at TravelVince. If you do not feel like having yet another newsletter in your inbox, no worries. Just click "unsubscribe" at the very end of the page and goodbye. However, if you want to give me a chance, read me first.

🇧🇷Chegamos em março de 2021. A sensação é seguirmos março de 2020. Em meio às dúvidas e medos, perdi o foco. Navego pelo meu apartamento em círculos. Entro na cozinha e esqueço o que ia fazer. Perco o celular pela sala. Sento na frente do computador para escrever essa newsletter e quando me dou conta, estou no site das curvas de casos e mortes, analisando, vendo se há alguma saída, Terra à vista.

Andava muito triste. Tinha pensamentos ruins e obsessivos o dia todo. Tive insônia. No escuro tudo fica mil vezes mais dramático. Ao mesmo tempo, não me sentia no direito de pedir ajuda, já que estamos todos lidando com tristeza e morte. Eu posso ficar em casa, tenho economias e comida na geladeira. Não tenho filhos com quem me preocupar, só meus pais, que parecem adolescentes desobedientes. Mas ao ler um livro, o personagem se matou. Vi um filme onde alguém se enforcou. Até que, por sorte, meu irmão me viu e perguntou se tudo estava bem. Tive que organizar os pensamentos para responder e isso me ajudou a ver que sim, estou bem. Foi um giro da roda-gigante. Por isso resolvi escrever sobre o assunto já no começo, para perguntar: você está bem?

No tempo que passou desde a última newsletter, fiz bastante coisa. Escrevi contos para o curso de escrita da Escrevedeira. Sempre que me sinto confortável com o resultado, publico nas Travel Stories do TravelVince. Mandei minha avó materna para Paris e relembrei da avó paterna com as comidas que fazia. Imaginei-me novamente comissário de voo. Passa lá para ler.

Para fugir do noticiário, além de ler, vejo tevê e escuto podcasts. Livros ótimos que recomendo são "O Avesso da Pele", de Jeferson Tenório, e "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior. Tenho intercalado contos de Clarice Lispector, Tchékhov e Caio Fernando Abreu com "Grande Sertão: Veredas", de Graciliano Ramos, que me exige atenção e foco, mas me leva para bem longe daqui. Viajo sem sair de casa.

Duas séries do Netflix que adorei são "Bonding", sobre fantasias sexuais, e "Amor e Anarquia", sobre relacionamentos (e sexo). As duas são bem leves e curtas. Ajudam a descontrair. O filme "A Escavação", também no Netflix, é outra delícia.

A grande surpresa tem sido o podcast "The Huberman Lab". Andrew Huberman é diretor do laboratório de neurobiologia de Stanford e divide com as mais novas descobertas sobre o funcionamento do sistema nervoso. O incrível é que ele dá dicas de como melhorarmos nossa saúde física e mental com suas descobertas. Como dormir melhor, como ter foco para estudar, como controlar a ansiedade, como modificar o cérebro. O podcast em inglês está no Spotify e YouTube. São meio longos, com cerca de uma hora cada. Em meus planos está publicar os resumos dos episódios em português no TravelVince. Se fizer eu aviso na próxima newsletter, ok?

Escapei em janeiro e fui até o Paquistão. Conto sobre a viagem no post "Consolo no Paquistão", também no TravelVince. Passei pelos Emirados Árabes no caminho e logo sai outro post sobre lugares interessantes para visitar ao redor de Dubai. Isso para quando voltar a ser seguro e gostoso de viajar, né? Se a vontade de ver outros horizontes está brava, dê uma olhada em Window Swap. São vistas de janelas em várias cidades do mundo. Para passear de carro por Berlim, Pequim, Istambul, Lisboa, vá para Drive & Listen. Tem até Curitiba.

Há exatamente um ano eu estava em São Paulo na fila do consulado chinês pedindo visto de estudante. Se tivesse embarcado imediatamente, teria entrado na China. Mas o medo foi maior. Hesitei e o visto foi cancelado. Estou usando o crédito da Hutong School para fazer aulas por Zoom. Recomendo aprender mandarim para quem tem medo de Alzheimer. Na verdade, a maior motivação para as aulas é usar o cérebro até fundir. Sei que não vou falar fluente e que vou esquecer de todos os caracteres, mas uso como remédio. Pergunto doze vezes a mesma coisa. Confundo eu com você, quatro com dez. É uma diversão.

Se você chegou até aqui, é porque está com foco. Obrigado por dividir seu tempo comigo, por me ler. Me faz bem e espero que para você também. Se curtir alguma das recomendações da newsletter, compartilhe com outras pessoas. Em breve espero voltar a dividir dicas de viagens. Se cuide e até a próxima.

www.travelvince.com


🇬🇧We've arrived in March 2021. It feels we never left March 2020. Amid doubts and fears, I've been losing focus. I walk around the apartment in circles. I go into the kitchen and forget what I was going to do. I lose the cell phone a few times a day. I sit in front of the computer to write this newsletter and when I realize it, I am on the covid info website, analyzing, seeing if there is any way out of this mess. Then I get lost again.

I was very sad for a few days. I was having bad, obsessive thoughts. I had insomnia. In the dark everything is thousand times more dramatic, isn't it? At the same time, I did not feel entitled to ask for help. We are all dealing with sadness. I can stay at home, I have savings, there is food in the fridge. I have no children to homeschool, only my parents, who behave like disobedient teenagers. However, when reading a book, the character killed himself. In a movie, someone hung himself. Luckily, my brother saw me and asked if everything was alright. I had to organize my thoughts to reply and it helped me see that yes, I was fine. It was just a low in this high-low we've all been on. So I decided to write about it right at the beginning to ask: are you okay?

In the time since the last newsletter, I did a lot. I wrote short stories for a writing course on Zoom. Whenever I feel comfortable with the result, I post on TravelVince's Travel Stories. I sent one grandmother to Paris and remembered the other through her cooking. I reimagined myself as a flight attendant. Pop over to read. You can have the stories translated by clicking on the “translate” button at the bottom of the page.

To escape the news cycle, I watch TV and listen to podcasts besides writing and reading. I travel without leaving home. I just finished reading "The Disappearing Act MH370", by Florence de Changy about the Malaysia Airlines flight that disappeared over the ocean. She investigated the accident for years and has amazing revelations. You can listen to her on Meet The Writers, a Monocle 24 podcast. I am reading some of Chekov's short stories and Olga Tokarczuk's "Travels".

Two Netflix series I loved are "Bonding", about sexual fantasies, and "Love & Anarchy", about relationships (and sex). Both are very light and short. They help you relax. The movie "The Excavation", also on Netflix, is another delight.

The big surprise has been "The Huberman Lab" podcast. Andrew Huberman is the director of Stanford's neurobiology laboratory and he shares his newest discoveries about the functioning of the nervous system. He explains and gives tips on how to improve our physical and mental health with his discoveries. How to sleep better, how to focus on learning new skills, how to control anxiety, how to modify the brain. It's on Spotify and YouTube. They are long, about an hour each. It's In my plans to publish the episode's summaries in Portuguese on TravelVince. If I do, I'll let you know in the next newsletter, ok?

In January I escaped to Pakistan for a few days. I tell you about the trip in the post "Solace in Pakistan", also on TravelVince (in Portuguese). I passed by the UAE on the way and soon another post about interesting places to visit around Dubai will come out. For when it is safe and pleasant to travel again, right? If the urge to see different horizons is pressing, take a look at Window Swap for views from different windows. For a drive around Berlin, Beijing, Istanbul, Lisbon, go to Drive & Listen. It's a delight! There's even Curitiba in there.

Exactly a year ago I was in São Paulo at the Chinese consulate applying for a student visa. If I had embarked immediately, I would have entered China. But the fear was greater. I hesitated and the visa got canceled. I am using the credit with Hutong School to take classes via Zoom. I recommend learning Mandarin for anyone who is afraid of Alzheimer's. In fact, the biggest motivation for these classes is to use my brain until it fries. I know I will not speak fluent Mandarin and that I will forget all the characters I study with so much dedication, but I use it as medicine. I ask the same question twelve times. I mix up me with you, four with ten. It's fun.

If you made it this far, it’s because you’re focused. Thank you for sharing your time with me, for reading me. It makes me feel good and I hope you feel good too. If you like any of the newsletter's recommendations, share them with others. Soon I hope to get back to sharing travel tips. For now, take care and see you next time.

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Tchau! Bye!

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