TravelVince News #04

As falhas da memória | Memory gaps

🇬🇧I found an old notebook with names and emails of people I met in the years before Facebook. In those days we used to bid farewell with postal addresses and emails. We would hope to eventually meet again, someday. If you are wondering how this newsletter found its way into your inbox, it’s because your name was on that old list last updated in 2003. For the English version, scroll down to the blue picture, please.

🇧🇷Encontrei uma agenda antiga com nomes e emails de várias pessoas que conheci ao longo da vida antes do Facebook. Naquela época a gente trocava endereços e emails. Torcíamos para um dia nos reencontrarmos, quem sabe. Pois bem, se você recebeu essa newsletter e não tem noção de onde veio – nem de quem sou eu –, veio daquela lista, atualizada pela última vez em 2003.

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🇧🇷Meu medo de perder a memória começou na adolescência, na mesma época em que descobri que a bebida me tornava sociável e aceito. Bebia muito para rodopiar na pista de dança, para soltar a língua e ter coragem de beijar meninas. Só que o álcool torrava meu cérebro e os neurônios mortos na noitada não voltariam a funcionar, dizia o professor de Biologia. Então a paranoia de começar a esquecer das coisas, dos acontecimentos e das pessoas teve início. Piorou quando passei a cheirar lança-perfume. Naquela época era apenas paranoia, afinal, seguia tirando boas notas. Mesmo assim, comecei a fazer uma lista com o nome de todos os filmes a que assistia. Pensei em fazer uma outra lista com os nomes das meninas com quem ficava, mas achei que delas não me esqueceria.

Hoje esqueço quase tudo. Noto enormes lacunas na minha memória, às vezes cômicas, como quando não lembro que já peguei no peito de tal pessoa, hoje mãe da família. Outros lapsos são mais graves, como não lembrar que já estive em um lugar, ou que já fui apresentado para certa pessoa umas cinco vezes. Esqueço com quem já transei. De verdade. Lembro das palavras que aprendi na aula de inglês quando tinha 13 anos mas não consigo falar as poucas da aula de mandarim de ontem. Assisto a um filme hoje e daqui a dois dias já não lembro mais da história. A diferença é que a paranoia juvenil virou acomodamento adulto. C'est la vie, dizem.

Certas coisas de que gostaria de esquecer eu lembro vivamente, como quando eu e uma prima empurramos o filho da caseira da praia para o fundo do mar porque ele estava nos incomodando. Ele se afogou e eu me escondi atrás de um armário de medo de apanhar. Minha sorte é que todo mundo achou que eu também tinha me afogado, meu sumiço causou pavor na família. Quatro horas depois, quando minha mãe escutou meu choro atrás do armário foi um alívio. Ela achou que eu estava ali de medo da convulsão que foi o afogamento do filho da caseira. C'est la vie, pensei.

Tenho uma prima irritante que lembra de tudo nos mínimos detalhes. Se eu também lembrasse de tudo nos mínimos detalhes talvez não a achasse tão irritante. Esses dias ela roubou uma meia de Natal do Snoopy da minha casa porque se lembrava de que quando éramos pequenos, a meia era dela e trocamos por uma borrachinha perfumada do Paraguai. Mas confesso que também sou irritante com uma amiga, que um dia me contou, em segredo, que tinha chupado o pinto de um cara. Sempre que me encontro com o cara, faço uma selfie nossa e mando para ela com um emoji de risadinha. Talvez ela quisesse esquecer disso, assim como eu gostaria de ter apagado a culpa pelo afogamento do filho da caseira para dar lugar no meu HD cerebral ao novo vocabulário mandarim.

Guardo fotos, cartas, recordações de viagens (caixas de fósforo, notas fiscais, entradas de museus) e até mesmo bilhetinhos trocados em sala de aula. Tenho medo de me desvencilhar dessa parafernália e nunca mais ter os alumbramentos ao remexê-las. Quem sabe um dia as memórias me ajudem a compor um romance, ou a lembrar-me quem fui, caso seja acometido por Alzheimer. Morro de medo de ter Alzheimer justamente pelo pavor do esquecimento. Se minha vida se tornar o filme "Meu Pai", com o Anthony Hopkins, não sei o que será de mim. Ainda mais eu que não terei uma Olivia Colman para tentar me alegrar. Economizo dinheiro para poder me internar em um sanatório bem bom com enfermeiros bonitos e cuidadosos. C'est la vie, oras.

Pensando em ficar velho, lembro de minha avó paterna. Ela sempre me puxava pelos cantos com suas mãos cheias de veias azuis e, num tom confabulatório, dizia que eu só seria feliz se me casasse com uma moça boa e se tivesse muitos filhos. Caso contrário só daria trabalho para meus pais e para o meu irmão. Vez ou outra tenho pesadelos com aquela mão gelada de dedos magros e compridos me apontando e dizendo: eu bem que te falei! Como toda boa libanesa, tentou me casar com uma prima sem pensar que os bisnetos nasceriam fosforescentes. Viveu até os 103 anos, por isso minha preocupação com a poupança para a velhice no sanatório de enfermeiros sarados. Outro projeto é dar uma festa de arromba aos 85 e tomar uma overdose de champanhe.

Nesta newsletter não vou recomendar nada. Talvez pílulas de gingko-biloba, palavras cruzadas e sudoku. Tenho me sentido travado. Estou preso aos mesmos livros que comecei há dois meses e se tornaram intermináveis. Mesmo a série sobre o designer de moda Halston, no Netflix, me travou, já que muitos morrem de outra pandemia, que me assusta desde quando tinha memória; a pandemia de AIDS. A vida também segue travada no Brasil, sem vacina, entre bandeiras laranjas e vermelhas. Contudo, postei dois textos novos no TravelVince.com, o Visite Capivânia e o Sweet Dreams. Prometo destravar até nosso próximo encontro por aqui. Quem sabe um passarinho me leve a outras paragens. Guardo surpresas.

Se cuide!

Vicente

Ps: não poderia me despedir sem contar que começamos, eu e minhas sócias da Pulp – Fer e Pati –, uma outra newsletter de contos curtos chamada de Alumbramentos da Pulp. Está deliciosa. Assina lá também. Obrigado.

🇬🇧My fear of losing my memory started in my teenage years. At the same time I found out alcohol made me socially accepted. I used to drink a lot to whirl around dancefloors, speak up, and have the courage to kiss girls. But that alcohol was also frying my brain and the neurons killed partying would never be born again, the Biology teacher assured me. Therefore the paranoia of forgetting things, people and events began. It got worse when I added poppers to the mix. At that time it was just paranoia as my grades in school and uni were still good. However, I started compiling a list of all the movies I had watched, just in case. I also thought of starting one with the names of the girls I had kissed, but I thought I could never forget them.

Nowadays I forget almost everything. There are enormous voids in my memory. Some are quite hilarious like forgetting I already touched someone’s nipples. Some are not fun, like forgetting I’d been somewhere or introducing myself for the fifth time to the same person. I even forget with whom I’ve already had sex. Really. I remember words I learned in French when I was 13 but cannot recall the new vocabulary learned two days ago for Mandarin class. I will watch a movie today and in two days' time will have obliterated it from my memory. What was paranoia in my teenage years has turned into a c’est la vie approach late in life.

There are certain events I would rather to forget but I remember them vividly. Once, as kids, a friend and I were playing in the water at the beach. The son of the cook was annoying us so we pushed him into the waves. He almost drowned. In the chaos of people rushing to rescue him in the water, I ran away and hid behind a closet. To my luck, my parents thought I had also drowned and were looking everywhere for me in despair. Four hours later, when my mom heard me crying behind the closet, she was so relieved to find me alive there was no question of what had actually happened. I kept quiet. C’est la vie.

I have an irritating cousin who remembers absolutely everything. In detail. If my memory were as good as hers, I'd probably not find her so annoying. Once she stole a red Snoopy Christmas sock from my apartment claiming I had cheated her when we were small. I offered her a perfumed pencil eraser bought in Paraguay in exchange for that Christmas sock. Revenge is a "bitch" best served cold. She did not mention returning my perfumed eraser though. But I confess I can also be quite irritating. A friend of mine told me once in secret she had sucked a guy's cock. Whenever I meet the guy, I take a selfie with him and send it to her with a smiley emoji. Maybe she would rather forget that the same way I would love to forget having pushed the cook’s son into the waves. I could use the freed space in my brain's hard drive for the Mandarin vocabulary.

I keep pictures, letters, travel souvenirs and even small notes exchanged in class 35 years ago. I fear throwing it all away and not having the glimpses this paraphernalia brings back anymore. Maybe those memories will one day help me with my novel or will simply help me recover memory as such (if Alzheimer shows up, for example). After watching The Father, with Anthony Hopkins, I thought that I’d better save money for a good care home since I will have no Olivia Colman to help me. C’est la vie.

Thoughts of being old remind me of my grandmother. She would often push me aside with her blue veined hands to tell me I would only lead a happy life if I married a proper girl and had lots of children. Otherwise, I was doomed to be a burden for my parents and for my brother. From time to time that cold hand with those long fingers pointing at me uttering that curse still comes to mind. As a typical Arab granny, she wanted me to marry a cousin not knowing we were bound to have fluorescent kids. She lived to 103 years old, enough reason for me to keep on saving for that quality care home, with gorgeous male nurses to give me my injections. Another plan is to spend it all on an 85-year-old bash and overdose on champagne. Sign up if you want an invitation!

Today I will not recommend stuff, as usual. Maybe some ginkgo-biloba, crosswords and sudoku. I’ve been feeling stuck. I am even stuck to the books I started reading two months ago which have become unending stories. Even the Netflix series on Halston made me freeze thinking of all the deaths due to AIDS, a pandemic that still scares the shit out of me. Life in Brazil feels kind of stuck, with little vaccination and an alternation of hard and light lockdowns. However, I do have plans to get unstuck for the next newsletter and hopefully, a little bird will whisk me away from here soon.

Take good care,

Vicente 

ps: if you can read Portuguese or don’t mind reading with Google Translate, I can recommend two new short stories of mine on TravelVince.com and another newsletter I’ve been writing with my business partners at Pulp called “Alumbramentos da Pulp”. Have a look and sign up!